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18/08/2006 20:25
Mario Quintana
Obsessão do mar oceano
Vou andando feliz pelas ruas sem nome...
Que vento bom sopra do Mar Oceano!
Meu amor eu nem sei como se chama,
Nem sei se é muito longe o Mar Oceano...
Mas há vasos cobertos de conchinhas
Sobre as mesas... e moças na janelas
Com brincos e pulseiras de coral...
Búzios calçando portas... caravelas
Sonhando imóveis sobre velhos pianos...
Nisto,
Na vitrina do bric o teu sorriso, Antínous,
E eu me lembrei do pobre imperador Adriano,
De su'alma perdida e vaga na neblina...
Mas como sopra o vento sobre o Mar Oceano!
Se eu morresse amanhã, só deixaria, só,
Uma caixa de música
Uma bússola
Um mapa figurado
Uns poemas cheios de beleza única
De estarem inconclusos...
Mas como sopra o vento nestas ruas de outono!
E eu nem sei, eu nem sei como te chamas...
Mas nos encontramos sobre o Mar Oceano,
Quando eu também já não tiver mais nome.
Obsessão do Mar Oceano

enviada por alba N.
22/07/2006 20:43
Para Nina, meu Amor
Raio de luz
Quebrando a bruma
lume cone de aeroplano
Avalon, deusa-Mãe:
Fogueiras tântricas serpenteando nossos corpos nus
vestidas nas fantasias delas- Elas
-todas em nosso espelho Matrix Revolutions
Blow Up- Click!
Eu era Ursula no filme de James
Bond, my name is Bond!
Angelina tu, Jolie Tomb Raider
no céu sem estrelas dos anjos alemães que saltavam de trapézios inacabados
no filme de Win
- I won- This war
Nenhuma meiga Meg.
Olhar fantasma desespero
e espero perguntando ao pó que nem Allen.
Dust. Ask The
Tróia, Briseida meu calcanhar
o teu perfurado pela flecha harpia olhos de.
Mulher-Gavião, Mulher-Gato, Stormy Tempestade de areia
e Névoa...
XY
XX
Gattaca. 1984. Blade Runner. Torre Negra de Stephen King.
Morgana, Guinevere, Eva, Lilith, Gioconda, Madonna, Marilyn, Garbo
eu&ela
Nina, menina na madrugada sem fim
infinda em minha alma
Espírito dela.
Minha Santa.
Desmancho em cores da minha orgulhosa bandeira
um laço de fita pra te enfeitar
albanegromonte

enviada por alba N.
10/07/2006 08:53
De volta ao lar...
E assim é que depois de tantas noites insanas e insones, abro os olhos pro mundo que me abre os braços mais uma vez.
...
De volta à Poesia, ao Amor... à Vida
Evohé!
A quem me lê, beijos e aquela coisa toda!
albanegromonte
enviada por alba N.
27/05/2006 17:29
Listening Creed
Não sei o que me corrói por dentro.
Que destrói aos poucos, a esperança e a atávica humana vontade de sobreviver.
Não sei que dor é esta que me acorda meio da noite
arrancando nacos da minha alma
do meu coração emparedado
- e gritos de mim, quando vejo olhos de fogo se agitando no meio da escura
negra e violácea solidão do meu quarto.
Baile de morcegos
Máscaras de antigos rituais
Sangrentos altares
Punhais molhados agitando-se em insana coreografia
e o Medo.
Instalando-se veloz e voraz pelo meu peito e mente, transmutando em mim
a sombra do que fui ou pensava ser.
Vermes lisos e vermelhos passeiam pela minha pele
mas sentem sopro de vida
e se recolhem no canto do quarto
onde moram os donos dos pesadelos que me torturam noite e dia,
implacáveis, honrados guerreiros do Mal
Como se eu houvesse criado o oitavo pecado capital.
E ainda o tivesse cometido.
Da minha janela vejo o Atlântico Sul que ladeia minha cidade
Um cachorro late como fosse um lobo
virado para a Lua
Sirene de ambulância corta o silêncio
E os demônios se esvaem quando acendo a luz vaga do lume, vagalume do meu teto
O Sol brilha agora no Japão
e não tem pressa de chegar.
Nuvem baça se transforma em Anjo
e fecho os olhos para não ver.
Não quero anjo a me proteger de mim.
(se ao menos tivesse certeza que anjos também têm suas guardas próprias)
Dou as costas ao que se destinava a me libertar de mim.
Ponteiros do relógio marcham devagar
- e nem toda a poesia deste mundo me resgata do Inferno.
Não. Não sei o que me corrói por dentro.
Se o sal das lágrimas todas que derramei por ti
Se a saudade do teu cheiro que nem sei mais
Da tua voz que não ouço.
Não sei que me destrói lenta e dolorosamente
de dentro pra fora
E que não se reflete no espelho do quarto
Nem nas retinas de quem ainda se atreve a me amar.
Sei que há demônios a meu redor
Afiando foices.
Arrastando correntes.
Cavando buracos.
Acendendo fogueiras.
Sei que no salto fino do meu sapato
destruo orquídeas recém-nascidas
nas frestas do asfalto por onde passo sem saber pra onde, porque,
por quem, para que?
Sei que trago a palavra de dor perdida
num bilhete guardado na bolsa,
Palavra que
Vai magoar,
Vai ferir quem tentou
Mas sei também que a liberdade desta dor que me corrói e destrói
só terá fim com meu fim.
E que nem a orquídea despedaçada no asfalto quente
Pressinto o que já sabia.
Morri.
Ninguém percebeu.
Esqueceram de me enterrar.
E o vento desfolha as folhas da minha alma
E espalha pelas ruas da cidade o que de mim restar
Nas palavras que escrevi um dia.
No amor que te dei.
Na filha que não fiz.
Na contínua lágrima que rolava na minha face
Quando eu pensava
Que podia sonhar
albanegromonte

enviada por alba N.
27/05/2006 13:49
Todas as estrelas estão floridas
Antoine de Saint-Exupéry
"As pessoas têm estrelas que não são as mesmas. Para uns, que viajam, as estrelas são guias. Para outros, elas não passam de pequenas luzes. Para outros, os sábios, são problemas. Para o meu negociante, eram ouro. Mas todas essas estrelas se calam. Tu, porém, terás estrelas como ninguém... Quero dizer: quando olhares o céu de noite, (porque habitarei uma delas e estarei rindo), então será como se todas as estrelas te rissem! E tu terás estrelas que sabem sorrir! Assim, tu te sentirás contente por me teres conhecido. Tu serás sempre meu amigo (basta olhar para o céu e estarei lá). Terás vontade de rir comigo. E abrirá, às vezes, a janela à toa, por gosto... e teus amigos ficarão espantados de ouvir-te rir olhando o céu. Sim, as estrelas, elas sempre me fazem rir!"
enviada por alba N.
15/05/2006 19:19
Para quem joga amarelinha
A Lebre hoje foi ferida no coração.
Setas enviadas por anjos também machucam.
A Lebre chorou tanto que nem viu o Cronopio a seu lado oferecendo-lhe um lencinho bordado com uma violeta, que é a cor mais linda que a Maga gostava quando bricava de Amarelinha nas palavras de Cortazar.
Hoje a Lebre nem viu se fez sol, ou se choveu.
Nuvens fofinhas baixaram a seu lado para que brincasse de balançar no céu, mas as lágrimas embaçavam-lhe os óculos, os olhos...
As lágrimas corriam tanto, que um rio se formou ao lado da árvore, que depois cresceu mais e virou um oceano. Aí, uma caravela lusitana apontou no horizonte trazendo Famas que dançavam catalas e Esperanzas desconsoladas com a mudança.
Ouviu-se um suspiro ao longe, e o Jaguadarte acordou pra ver o que acontecia.
Da caravela desceu um menestrel, que cantou uma valsinha.
A Lebre sorriu um sorrisinho meio sem graça, mas achou bonito tanta gente querendo fazê-la feliz.
Deu um beijo no poeta menestrel, ameigou a cabeça do Jaguadarte, daçou catala com as Famas e com as Esperanzas e depois abraçou seu querido Cronopio, aninhando-se em seu peito para dormir com um leve ar de insanidade.

enviada por alba N.
10/05/2006 23:04
a prayer to my angel
eu conheço um anjo.
nunca o vi, mas sinto-lhe a presença diária em telefonemas e e-mails (o Paraíso está informatizado).
meu anjo tem olhos rasgados e cara de menino (outro dia achei uma foto dele caída da sua asa. é muito lindo meu anjo.
de manhã, ele me toca o celular, apenas para que eu saiba que ele está ali em vigília e que eu me comporte.
à tarde, ele repete o ritual.
à noite, Deus permite que meu anjo vá a um Cyber na Paulista, disfarçado em junker boy, e conversamos um tempão.
meu anjo pede pra me ver, mas nunca se mostra.
parece que não pode.
diz que sou bonita e que pareço um bebê, tamanha inocência diante das serpentes que me rodeiam para dar o bote, e também porque já lhe mostrei minha coleção de bonecos e pelúcias.
outro dia, conversamos por telefone, e sua voz mansa e terna me fizeram bem ao coração que anda meio combalido.
meu anjo é the best one!
gosta de Cortazar, Bukowski, Lou Reed, Borges, Hendrix... e quase tudo que eu também gosto.
me explicou que os anjos são escolhidos para proteger semelhantes.
pra não ter briga.
meu anjo é cinéfilo. nos últimos dias tem falado muito naquele filme do Win Wenders... será que meu anjo quer ser mortal?
hoje não vi meu anjo.
mas sei que da nuvem onde ele está, pensa em mim e me protege dos males do mundo.
obrigado anjo, por surgir na minha vida.
beijos nas asinhas felpudas
albanegromonte

enviada por alba N.
29/04/2006 21:44
Os Bombardeiros
Nós somos a América.
Somos os enchedores de caixões.
Nós somos os merceeiros da morte.
Nós empacotamo-los como se fossem couves-flor.
A bomba abre-se como uma caixa de sapatos.
E a criança?
A criança certamente não boceja.
E a mulher?
A mulher lava o seu coração.
Foi-lhe estropiado
e, porque está queimado,
num acto derradeiro,
ela enxagua-o no rio.
Este é o mercado da morte.
América,
onde estão as tuas credenciais?
Anne Sexton

enviada por alba N.
29/04/2006 20:37
Menina
A menina translúcida passa.
Vê-se a luz do sol dentro dos seus dedos.
Brilha em sua narina o coral do dia.
Leva o arco-íris em cada fio do cabelo.
Em sua pele, madrepérolas hesitantes
pintam leves alvoradas de neblina.
Evaporam-se-lhe os vestidos, na paisagem.
É apenas o vento que vai levando seu corpo pelas alamedas.
A cada passo, uma flor, a cada movimento, um pássaro.
E quando pára na ponte, as águas todas vão correndo,
em verdes lágrimas para dentro dos seus olhos.
Cecília Meireles

enviada por alba N.
29/04/2006 11:44
Notícias da Lebre
A Lebre anda pensativa.
Não quer ler, escrever...
Só pensa em dormir e ficar olhando pra foto do Cronopio no espelho do quarto.
É que o Cronopio foi fazer um curso de catala.
Deve voltar logo, mas a Lebre é impaciente por demais...
Aguardem, meus quatro leitores, o retorno da Lebre!
enviada por alba N.
15/04/2006 22:49

enviada por alba N.
15/04/2006 22:10
Anna K.
no olhar que às vezes se perde
a pergunta que nunca se cala.
no peito que carrega todas as lutas
a lembrança de um amigo que se foi.
na alma que às vezes se volta para dentro
o avesso do amor, a ferida que não cicatriza.
no sorriso que acontece por acaso
a beleza de quem sabe o que é:
uma grande e guerreira mulher.
feliz aniversário, amiga.
amo você
enviada por alba N.
15/04/2006 19:55
Alejandra Pizarnik
Naufrágio Inconcluso
Este temporal fora de hora,
estas relhas nas meninas de meus olhos,
esta pequena história de amor
que se fecha como um leque,
que aberto mostrava à bela
alucinada: a mais desnuda do bosque
no silêncio musical dos abraços.
ph Claudio Lopes
enviada por alba N.
11/04/2006 03:16
uma lágrima...
que conseguiu escapar do teu olhar
pousou em minha alma
e senti o coração rasgar um tanto
pelo teu, contido na incredulidade.
isto não aconteceu. amanhã o sol vai nascer de novo e nada aconteceu, diz o menino que mora em ti.
e é este menino que trago a meus braços,
acaricio-lhe os cabelos e canto uma valsinha portuguesa
para fazê-lo dormir e assim aquietar o coração
que sofre e sente por ti, homem feito e guerreiro, toda a dor
deste instante inesperado.
para ti todo o meu amor.
para quem partiu, uma oração.
e a lágrima enfim refugiada no meu olhar
consegue seu descanso.
1o de abril, de um ano muito estranho.

enviada por alba N.
08/04/2006 00:26
pAlavRa dE miM
sOmbras
EspAços inacabados em meus dias e noites
que se refazeM como sE eu nãO já esTivessE
quAse moRta
raiO de sol aCorda Minhas peRnas,
anTes que meu sonhO se acabe
e nunca Mais conSegui tua boCa na minHa tão junto
que nãO seJa nestes sonHares impoStos pelo canSaço de viVer em vãO
acorDa o relóGio, o teLefonE, a faXineira
e eu Me enrosCo serPente
noS lençóiS sem teu cHeiro que jÁ nEm sei a coR
se é qUe houve cor qualquer num OutubRo frio
que arDe ainda no fogo sAgrado destA alma que choRa tuA
auSência, tUa quase pResenÇa
teu diZer coisa sem neXo
a me enTontecer de deseJo
carne minha tâo tensa e ceGa
segue roLando ladeira aCima
que nem O outro contOu no InferNo que sonhou- oU conheceu- qUem saBerá?
não teNho noMe de flOr
nãO sou suaVe, nem sei dançaR.
dizem de mim, oS que se pensaM
que sOu vítiMa da oBsessão do aMor
amoR que nuncA vem
amOr que semprE vai e me deixA
sem somBra alGuma nuM deserTo maior que o SAAra
alma tRôpega, taciturna, Silenciosa alMa qUe caRRega meu corPo
que agorA é teu, taManha a marca que cravAste em ferro fogo&luZ
e Se não possO te beijaR
nem jaMais diZer que te AMo
rastrEio naS estrelas de nóS dois que às veZes me entram
pela fresta Da jAnela que eteRnamente fechadA
um Poema de naDa
uM dizer iNsano
um Qualquer imperfeitO verbo
prA tradUzir a ti, estúPida criAtura
o que Perdes em nÂo quereR mE conHeceR.
albanegromonte
enviada por alba N.
08/04/2006 00:24
Vinícius de Moraes
O dia da criação
Macho e fêmea os criou.
Gênese, 1, 27
I
Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar
Os bondes andam em cima dos trilhos
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na cruz para nos salvar.
Hoje é sábado, amanhã é domingo
Não há nada como o tempo para passar
Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo
Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal.
Hoje é sábado, amanhã é domingo
Amanhã não gosta de ver ninguém bem
Hoje é que é o dia do presente
O dia é sábado.
Impossível fugir a essa dura realidade
Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas
Todos os maridos estão funcionando regularmente
Todas as mulheres estão atentas
Porque hoje é sábado.
II
Neste momento há um casamento
Porque hoje é sábado
Hoje há um divórcio e um violamento
Porque hoje é sábado
Há um rico que se mata
Porque hoje é sábado
Há um incesto e uma regata
Porque hoje é sábado
Há um espetáculo de gala
Porque hoje é sábado
Há uma mulher que apanha e cala
Porque hoje é sábado
Há um renovar-se de esperanças
Porque hoje é sábado
Há uma profunda discordância
Porque hoje é sábado
Há um sedutor que tomba morto
Porque hoje é sábado
Há um grande espírito-de-porco
Porque hoje é sábado
Há uma mulher que vira homem
Porque hoje é sábado
Há criançinhas que não comem
Porque hoje é sábado
Há um piquenique de políticos
Porque hoje é sábado
Há um grande acréscimo de sífilis
Porque hoje é sábado
Há um ariano e uma mulata
Porque hoje é sábado
Há uma tensão inusitada
Porque hoje é sábado
Há adolescências seminuas
Porque hoje é sábado
Há um vampiro pelas ruas
Porque hoje é sábado
Há um grande aumento no consumo
Porque hoje é sábado
Há um noivo louco de ciúmes
Porque hoje é sábado
Há um garden-party na cadeia
Porque hoje é sábado
Há uma impassível lua cheia
Porque hoje é sábado
Há damas de todas as classes
Porque hoje é sábado
Umas difíceis, outras fáceis
Porque hoje é sábado
Há um beber e um dar sem conta
Porque hoje é sábado
Há uma infeliz que vai de tonta
Porque hoje é sábado
Há um padre passeando à paisana
Porque hoje é sábado
Há um frenesi de dar banana
Porque hoje é sábado
Há a sensação angustiante
Porque hoje é sábado
De uma mulher dentro de um homem
Porque hoje é sábado
Há uma comemoração fantástica
Porque hoje é sábado
Da primeira cirurgia plástica
Porque hoje é sábado
E dando os trâmites por findos
Porque hoje é sábado
Há a perspectiva do domingo
Porque hoje é sábado
III
Por todas essas razões deverias ter sido riscado do Livro das Origens,
ó Sexto Dia da Criação.
De fato, depois da Ouverture do Fiat e da divisão de luzes e trevas
E depois, da separação das águas, e depois, da fecundação da terra
E depois, da gênese dos peixes e das aves e dos animais da terra
Melhor fora que o Senhor das Esferas tivesse descansado.
Na verdade, o homem não era necessário
Nem tu, mulher, ser vegetal, dona do abismo, que queres como
as plantas, imovelmente e nunca saciada
Tu que carregas no meio de ti o vórtice supremo da paixão.
Mal procedeu o Senhor em não descansar durante os dois últimos dias
Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa
Descansasse o Senhor e simplesmente não existiríamos
Seríamos talvez pólos infinitamente pequenos de partículas cósmicas
em queda invisível na terra.
Não viveríamos da degola dos animais e da asfixia dos peixes
Não seríamos paridos em dor nem suaríamos o pão nosso de cada dia
Não sofreríamos males de amor nem desejaríamos a mulher do próximo
Não teríamos escola, serviço militar, casamento civil, imposto sobre a renda
e missa de sétimo dia.
Seria a indizível beleza e harmonia do plano verde das terras e das
águas em núpcias
A paz e o poder maior das plantas e dos astros em colóquio
A pureza maior do instinto dos peixes, das aves e dos animais em cópula.
Ao revés, precisamos ser lógicos, freqüentemente dogmáticos
Precisamos encarar o problema das colocações morais e estéticas
Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até praticar amor sem vontade
Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e sim no Sétimo
E para não ficar com as vastas mãos abanando
Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança
Possivelmente, isto é, muito provavelmente
Porque era sábado.
ph EBarrox
enviada por alba N.
01/04/2006 17:11
A violeta Laurinha

enviada por alba N.
01/04/2006 16:54
A Lebre na parede
Hoje a Lebre acordou triste.
Chovia no mar em frente à caverna e dentro do seu coração.
O dia iniciou tão solitário.
Apenas o Cronopio, bracitos para cima, oferecia-lhe alento, mas ela sorriu-lhe um sorriso tão ausente que ele se encolheu e foi ler um livro.
A Lebre passeou pela caverna, arrumou suas coisinhas numa sacola cor-de-laranja e pensou em partir.
Então um raio de sol invadiu a varanda, banhando a violeta que se chama Laurinha, e a Lebre desistiu de desistir.
Desarrumou a sacolinha, comeu uma barra de chocolate e enxugou as lágrimas com seu lencinho cor-de-rosa.
Mas continuou triste, e se encostou na parede para pensar.

enviada por alba N.
28/03/2006 04:27
A Lebre é uma Lady
E não vai tirar as patinhas dos saltinhos lindos pra se sujar na lama. O Cronopio voltou e ela agora tem que se arrumar pro próximo encontro que não demora.
O Chapeleiro hoje deu-lhe um livro de Sartre... A Idade da Razão... mas a Lebre ainda está no Jogo da Amarelinha... em plena degustação.
olha a preocupação da Lebre...
enviada por alba N.
25/03/2006 22:41
Chile, 1973
parem a guerra.
silenciem os tambores dos revólveres.
retirem as fardas das avenidas.
baixem a guarda dos tanques.
deixem as ruas abertas.
- os relógios pararam, não vêem?
os sinos estão mudos, agora.
o sol se escondeu atrás da nuvem plúmbea.
as crianças não sorriem.
as mulheres não cozem nem cozinham.
os homens tiraram os seus chapéus- não perceberam?
o Poeta morreu.
sua alma pede espaço pra subir na escadaria de versos que esculpiu por toda a vida.
e deixem que o cachorro siga o cortejo bem na frente.
um cachorro sofre a perda do seu dono.
um País chora a perda do seu arauto.
uma mulher pranteia seu homem amado.
um carteiro vai virar escritor.
o mar ficará mais cheio, agora que ele não colhe mais conchas e coisas.
uma criança não conhecerá seu pai.
mas o mundo inteiro reconhece
a morte do Poeta.
parem a guerra.
respeitem a dor da Poesia,
agora inconsolável.
albanegromonte
ph Evandro Teixeira
enviada por alba N.
25/03/2006 22:07
A Lebre pensa
Esta noite a Lebre está pensativa...
Sente falta de algo que não sabe o que é, que nunca teve, mas que dói-lhe no meio do peito a ausência.
O que será isso?- a Lebre não compreende um vazio desconhecido.
Então senta na relva, olha pro céu que seu irmão lhe enviou hoje e chora, enquanto afaga os cabelos da sua boneca Billie Holiday, e sussurra um blues.

enviada por alba N.
24/03/2006 10:59
IncertezaCerteza
enquanto amarro no peito o laço invisível da saudade que carrego no coração
marco em vermelho os lábios
deixo que o Sol reveja parte de mim
e largo um sorriso plástico no meio da calçada por ando passo
derramando poesia em cada pé que se revela
a passos apressados de viver ainda mais.
e no peito uma cruz
na cabeça um desejo
no sexo um sonho
no olhar uma distância
na flor que reage à tempestade uma esperança
no vazio as presenças
na saudade medonha um sorriso de qualquer sentir
que não seja o de te ter novamente aqui.
da tua janela uma luz
olho pro outro lado ainda que ninguém esteja lá para me acolher
e apago a estrela que te dei.
ainda acho que tua estupidez te entristecerá um dia.
mas pretendo estar bem longe quando este chegar.
pra não saber que uma vez estive certa, e quem devia, não me ouviu.
albanegromonte
enviada por alba N.
24/03/2006 10:52
amor menor
inevitável a dor que acompanha
cada silêncio que sopras em suaves desvios de mim.
e há noites, que nem essa, quando a Lua me empurra mar adentro
e que vejo com a claridade dos loucos
(se é que não sabe, mora um louco em mim, além do palhaço que já conheces)
o quanto preciso de alforria.
se é tudo que dizem as torcidas que vestem minha camisa,
liberta meu sentimento.
me manda pra qualquer lugar onde teu olhar não me alcance,
lugar qualquer onde eu ainda me veja e possa sobreviver à danação que é pensar que somos dois,
quando carrego sozinha
todo bem-querer, todo insistir, todo abrir coração&alma em magnólias envenenadas por teu descaso e desculpas ilógicas.
e se for mesmo verdade o que leio nas entrelinhas dos quadros que passeiam inertes de ti no meu olhar encoberto de óculos
põe aqui tua mão na minha,
e devagar, como se dá notícia de morte
confirma o desencanto
e me liberta de ti.
albanegromonte
ph EBarrox
enviada por alba N.
23/03/2006 05:59
Quinta-feira 23
Hoje a Lebre está ensandecida.
Datas...
Pra que existem calendários?
Quem os criou, nunca amou. Ou nunca perdeu um amor em data que recordasse.
Quinta-feira, 23.
Era Primavera.
Hoje é Outono.
E a Lebre, sem Cronopio ou Chapeleiro para socorrê-la, corre pela Floresta, tentando arrancar do peito toda lembrança e toda dor.
enviada por alba N.
23/03/2006 05:55
Capítulo 6, pra quem sabe...
" ... atraindo-se e rejeitando-se, como é necessário quando não se quer que o amor termine em cromo ou em romance sem palavras"
Julio Cortazar em O Jogo da Amarelinha
enviada por alba N.
18/03/2006 03:30
Lebre embriagada
A Lebre hoje, resolveu sair da toca.
Sem Cronopio e sem Chapeleiro, seguiu inquieta ladeando o mar. Olhou a lua, quis ficar poetando sob sua luz, mas decidiu percorrer as trilhas desconhecidas.
Entrou num bar onde os garçons tinha asas nas costas.
Demorou pra entender que eram camisetas pintadas que faziam referência ao nome do bar: Anjo Solto.
Olhou o cardápio de bebidas, quis pedir um Baudelaire que tinha Absinto na composição, mas achou um abuso o que cobravam pelo nome do poeta querido.
Uns blues antigos ressoavam em suas grandes orelhas.
Pessoas passavam e não a viam ali na mesa de um só cliente. Era apenas uma Lebre solitária, pensavam as gentes em par que passavam por ela.
Ouviu umas canções, lembrou de tantas outras que tem no MP3, pediu a conta no segundo drink elaborado com morangos&vodka.
Titubeou na saída, mas se arrumou e seguiu avenida afora com seus mágicos saltos que logo a levaram à calorosa caverna.
Ligou a TV para ouvir voz humana, acendeu um incenso de almiscar e se enrolou num grosso cobertor.
Dormiu sem sonhar.
Nem viu que o Chapeleiro Maluco deixou recado no seu celular.
Hoje a Lebre está feliz.
enviada por alba N.
18/03/2006 03:16
Caetano, Olavo e a Língua Pátria
Língua
Caetano Veloso
Gosto de sentir a minha língua roçar
A língua de Luís de Camões
Gosto de ser e de estar
E quero me dedicar
A criar confusões de prosódias
E uma profusão de paródias
Que encurtem dores
E furtem cores como camaleões
Gosto do Pessoa na pessoa
Da rosa no Rosa
E sei que a poesias está para a prosa
Assim como o amor está para a amizade
E quem há de negar que esta lhe é superior
E deixa os portugais morrerem à míngua
"Minha pátria é minha língua"
Fala mangueira!
Fala!
Flor do Lácio Sambódromo
Lusamérica latim em pó
O que quer
O que pode
Esta língua?
Vamos atentar para a sintaxe dos paulistas
E o falso inglês relax dos surfistas
Sejamos imperialistas
Vamos na velô da dicção choo choo de
Carmen Miranda
E que o Chico Buarque de Holanda nos resgate
E - xeque-mate - explique-nos Luanda
Ouçamos com atenção os deles e os delas da
TV Globo
Sejamos o lobo do lobo do homen
Adoro nomes
Nomes em Ã
De coisas como Rã e Imã
Nomes de nomes
Como Scarlet Moon Chevalier
Glauco Matoso e Arrigo Barnabé e maria da
Fé e Arrigo barnabé
Flor do Lácio Sambódromo
Lusamérica latim em pó
O que quer
O que pode
Esta língua?
Incrível
É melhor fazer um canção
Está provado que só é possível
Filosofar em alemão
Se você tem uma idéia incrível
É melhor fazer um canção
Está provado que só é possível
Filosofar em alemão
Blitz quer dizer corísco
Hollyood quer dizer Azevedo
E o Recôncavo, e o Recôncavo, e o
Recôncavo
Meu medo!
A língua é minha pátria
E eu não tenho pátria: tenho mátria
E quero frátria
Poesia concreta e prosa caótica
Ótica futura
Samba -rap, chic-left com banana
Será que ela está no Pão de Açúcar?
Tá craude brô você e tu lhe amo
Qué queu te faço, nego?
Bote ligeiro
Nós canto-falamos como que inveja negros
Que sofrem horrores no gueto do Harlem
Lívros, discos, vídeos à mancheia
E deixe que digam, que pensem e que falem
Língua Portuguesa
Olavo Bilac
Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...
Amo-te assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela
E o arrolo da saudade e da ternura!
Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,
Em que da voz materna ouvi: "meu filho!"
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!

ph EBarrox
enviada por alba N.
18/03/2006 02:02
Allion 99
Bessie no ar, fumaça de cigarros dez (contei nos dedos e nos cinzeiros que passavam por mim).
Gentes. Silêncio de mim.
Frutas vermelhas plus bebida russa.
Ice e adoçante amargando o que já é fel.
Mel, eu tive nos lábios que cansaram de beijar os teus em noites assim.
Mãos se buscam. Encontram o par.
Asas do anjo solto na camiseta da garçonete bonitinha que me pisca por trás dos olhos pintados e envelhecidos pela night.
Dou risada do abismo que se fará depois deste então.
Os dias são só meus, e faço das pedras que rolam pela montanha,
escada para chegar a algum lugar.
Desejo deságua no corpo, através do brilho da Lua que não conquistei,
e que desmaia agora,
grávida de estrelas, no mar
que banha a janela do teu quarto de dormir.
E pelos olhos embaçados pela cor violeta (tão triste essa cor),
vejo tua imagem inversa àquela que trago no peito.
Nela, ainda me afagas os cabelos que se aprofundam em teus dedos.
Hoje não sofro mais.
Apenas sinto tua falta.
albanegromonte
ph EBarrox
enviada por alba N.
14/03/2006 21:28
Notícias
A Lebre anda meio tristonha.
O Cronopio viajou. O Chapeleiro sumiu na ventania última, montado num cometa japonês.
Hoje a lua cheia com seu brilho, a chamou.
A lebre pensativa, rabisca um poema.
enviada por alba N.
03/03/2006 07:06
Palavras que rasgam I
Uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente.
(Clarice Lispector)
enviada por alba N.
03/03/2006 06:59
Sempre ele...
APONTAMENTO
A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.
Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.
Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.
Não se zanguem com ela.
São tolerantes com ela.
O que era eu um vaso vazio?
Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles.
Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária.
Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.
E os deuses olham-no especialmente, pois não sabem por que ficou ali.
Álvaro de Campos, 1929
enviada por alba N.
03/03/2006 00:45
Desespero que dá esta lonjura que me afasta de ti. Não há trem, metrô, ônibus ou avião que alcance essa distância. Pois além da dita, existe a barreira a ser destruída sem trombeta de Josué, pela impureza da minha alma que rende a São Jorge, o santo banido, homenagem minha em poemas, camisetas e penduricalhos no pescoço. Valei-me então São Jorge. Larga dessa lança, ressucita o Dragão e me deixa sentar no dorso do bicho que ele cruza esse caminho de tanto céu e mar, e de quebra, soltando fogo pelas ventas pode derreter a tal muralha, que afinal de contas só é forjada em aço de solidão.
Me leva daqui, pois a minha solidão é que tenta agora se armar pra uma guerra onde somente eu serei perdedora, mesmo se vencer. E no meio dessa agonia toda que lhe conto, acha um jeito dele gostar de mim assim mesmo do jeito que sou: esparramada, exagerada, jogada aos pés, com oito braços e dez bocas (que ainda são poucos pra tanto carinho guardado neste peito incauto).
Mas se não tiver mesmo jeito dele me querer, inventa o revés da oração, e me faz esquecer os dias perdidos em poemas, lágrimas e cantigas de ninar pra menina que mora na minha alma.
Se é que ainda não entendeu meu Santo guerreiro: estou pedindo pra ser feliz!
03/03/2006 00:31:48
Águas de Março...
...molham a Floresta do Alheamento e a Lebre distraída, sai na chuva. o Cronopio corre com bracitos para cima, tentando avisar da tempestade, mas justo hoje, a lebre saiu com seu MP3, e ouve Steve Ray Vaughan no volume máximo. O Cronopio desiste e volta, bracitos arriados e um ar de despontamento nos olhinhos negros... Sua esperança é que ela encontre o Chapeleiro que poderá abrigá-la quando a floresta desabar em água fria.
Enviado por: alba N.
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25/02/2006 20:08:33
Para Marilyn
Ernesto Cardenal con la, sacristía o, bella Oración por Marilyn Monroe:
Señor
recibe a esta muchacha conocida en toda la tierra con el
nombre de Marillyn Monroe
aunque ese no era su verdadero nombre
(pero Tú conoces su verdadero nombre, el de la huerfanita
violada a los 9 años
y la empleadita de tienda que a los 16 se había querido matar
y que ahora se presenta ante Ti sin ningún maquillaje
sin su Agente de Prensa
sin fotógrafos y sin firmar autógrafos
sola como un astronauta frente a la noche espacial.
Ella soñó cuando niña que estaba desnuda en una iglesia
(según cuenta el Time)
ante una multitud postrada, con las cabezas en el suelo
y tenía que caminar en puntillas para no pisar las cabezas.
Tú conoces nuestros sueños mejor que los psiquiatras.
Iglesia, casa, cueva, son la seguridad del seno materno
pero también algo más que eso
Las cabezas son los admiradores, es claro
(la masa de cabezas en la oscuridad bajo el chorro de luz).
Pero el templo no son los estudios de la 20th Century-Fox
que hicieron de Tu casa de oración una cueva de ladrones.
Señor
en este mundo contaminado de pecados y radiactividad
Tú no culparás tan sólo a una empleadita de tienda.
Que como toda empleadita de tienda soñó ser estrella de cine.
Y su sueño fue realidad (pero como la realidad del tecnicolor)
Ella no hizo sino actuar según el script que le dimos
--El de nuestras propias vidas-- Y era un script absurdo.
Perdónala Señor y perdónanos a nosotros
por nuestra 20th Century
por esta Colosal Super-Producción en la que todos hemos trabajado
Ella tenía hambre de amor y le ofrecimos tanquilizantes.
Para la tristeza de no ser santos
se le recomendó el Psicoanálisis.
Recuerda Señor su creciente pavor a la cámara
y el odio al maquillaje --insistiendo en maquillarse en cada escena--
y cómo se fue haciendo mayor el horror
y mayor la impuntualidad a los estudios.
Como toda empleadita de tienda
soñó ser estrella de cine.
Y su vida fue irreal como un sueño que un psiquiatra interpreta y archiva.
Sus romances fueron un beso con los ojos cerrados
que cuando se abren los ojos
se descubre que fue bajo reflectores
y apagan los reflectores!
Y desmontan las dos paredes del aposento (era un set cinematrográfico)
mientras el Director se aleja con su libreta
porque la escena ya fue tomada.
O como un viaje en yate, un beso en Singapur, un baile en Río
la recepción en la mansión del Duque y la Duquesa de Windsor
vistos en la salita del apartamento miserable.
La película terminó sin el beso final.
La hallaron muerta en su cama con la mano en el teléfono
Y los detectives no supieron a quién iba a llamar.
Fue
como alguien que ha marcado el número de la única voz amiga
y oye tan sólo la voz de un disco que le dice: WRONG NUMBER
O como alguien que herido por los gansters
alarga la mano a un teléfono desconectado.
Señor
quienquiera que haya sido el que ella iba a llamar
y no llamó (y tal vez no era nadie
o era Alguien cuyo número no está en el Directorio de Los Angeles)
contesta Tú el teléfono!
Enviado por: alba N.
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25/02/2006 10:33:29
Sylvia Plath
Canção de Amor da Jovem Louca
tradução de Maria Luíza Nogueira
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro
Ergo as pálpebras e tudo volta a renascer
(Acho que te criei no interior da minha mente)
Saem valsando as estrelas, vermelhas e azuis,
Entra a galope a arbitrária escuridão:
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro.
Enfeitiçaste-me, em sonhos, para a cama,
Cantaste-me para a loucura; beijaste-me para a insanidade.
(Acho que te criei no interior de minha mente)
Tomba Deus das alturas; abranda-se o fogo do inferno:
Retiram-se os serafins e os homens de Satã:
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro.
Imaginei que voltarias como prometeste
Envelheço, porém, e esqueço-me do teu nome.
(Acho que te criei no interior de minha mente)
Deveria, em teu lugar, ter amado um falcão
Pelo menos, com a primavera, retornam com estrondo
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro:
(Acho que te criei no interior de minha mente.)
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25/02/2006 10:27:31
Sobre Musas
Tu és a relação entre o poeta e Deus.
Tu prefiguras a imagem do Eterno
Porque a todo o instante organizas o mundo,
Sem ti minha poesia se extinguirá
Sem ti eu ficaria mirando as construções do tempo.
Murilo Mendes, A musa. Em Poesia completa e prosa
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25/02/2006 10:11:34
É Carnaval
... mas a Lebre está na labuta.
Fora da toca, brilha um sol tão lindo no céu da Floresta do Alheamento...
Um cronópio brinca de despetalar margaridas inacabadas e o Chapeleiro ouve Stan Getz no radinho de pilha.
No centro do Recife, um Galo atravessa rios de pessoas que brincam de ser outras bem diferentes, dançam frevos&maracatus, dando o pontapé inicial nos quatro dias em que se esquece o que traz tormento ao espírito.
Alegria na cidade, no país. A loucura tem seus dias de reinado.
Quarta-feira, contam-se e juntam-se os pedaços que ficaram soltos nas passarelas de samba, frevo, axé...
A Lebre gostaria de estar nessa folia, fantasiada de Alice.
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25/02/2006 10:02:22
Leila Miccolis, Três Instantes Poéticos
Tentativa de Suicídio
Foi ao toalete
e cortou os sonhos,
à gilete.
Ruble Fish
Às vezes
a gente vive o impossível:
como acalentar
esta vontade incrível de amar,
a revelia
desse tempo mais difícil a cada dia.
Atirador de Facas
Arrancar as vendas
e acompanhar,
de olhos abertos,
a trajetória do punhal,
cravado em nosso corpo, em nosso peito,
a cada amor desfeito.
Enviado por: alba N.
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20/02/2006 02:14:52
A Lebre...
... continua entocada, mas não deixa de fazer suas postagens na madrugada que avança inexorável através da Floresta do Alheamento.
...
A Lebre também lê Fernando Pessoa.
Enviado por: alba N.
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20/02/2006 01:58:42
Musa&Poeta
"Agora só me resta acender um cigarro e ir pra casa. Meu Deus, só agora me lembrei que a gente morre. Mas - mas eu também?
Não se esquecer que por enquanto é tempo de morangos".
Trecho de A Hora da Estrela, Clarice Lispector
Enviado por: alba N.
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20/02/2006 01:53:04
Lispector...
"Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: apenas as duas pernas. Sei que somente com duas pernas é que posso caminhar. Mas a ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar."
trecho de A Paixâo Segundo GH, Clarice Lispector
Enviado por: alba N.
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20/02/2006 00:55:21
Do ventre da alma
Pois...
só o que te peço nesta hora
intranquila de solidão
é uma palavra que diga mais
que um qualquer dito a quem quiser ouvir.
o que te peço neste momento
é um carinho bem no centro do coração
que já aprendeu a sentir
tua ausência
só o que preciso nesta hora
é da tua mão na lágrima cansada que corre
pelo rosto
através do corpo tatuado por teu carinho de um Outubro nublado
o que preciso nesta hora
é que me digas, que sim
ainda posso sonhar
de te querer
de te poetar
de te desejar nas noites que se vão longe de ti
de te penetrar a alma e te fazer feliz
apenas peço e preciso
da tua presença nos meus amanheceres
na rosa e na lua fotografadas pelos teus mágicos olhos
da tua palavra afago no fim do dia
de tua voz vez em quando
apenas...
albanegromonte
Enviado por: alba N.
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18/02/2006 22:17:01
Hilda Hilst
Fotografia sacada do site oficial de Hilda: angelfire
Amavisse
Como se te perdesse, assim te quero.
Como se não te visse (favas douradas
Sob um amarelo) assim te apreendo brusco
Inamovível, e te respiro inteiro
Um arco-íris de ar em águas profundas.
Como se tudo o mais me permitisses,
A mim me fotografo nuns portões de ferro
Ocres, altos, e eu mesma diluída e mínima
No dissoluto de toda despedida.
Como se te perdesse nos trens, nas estações
Ou contornando um círculo de águas
Removente ave, assim te somo a mim:
De redes e de anseios inundada.
Enviado por: alba N.
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18/02/2006 16:50:06
A Lebre...
hoje foi à praia.
Mal pôde sentar, pois levou uma sova trans-oceânica...
Quem sabe, agora aprende?
Enviado por: alba N.
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15/02/2006 21:41:31
As nuvens negras...
... não abandonam o céu da floresta.
E a Lebre, solitária, come um chocolate embaixo da árvore.
Esperando que a tempestade se vá, que a Lua volte a brilhar pros seus olhos e que as coisas possam ser apenas as coisas.
Nada mais pede a Lebre.
Apenas paz.
E que não matem mais baleias, que o mar está muito vermelho.
Enviado por: alba N.
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14/02/2006 04:57:50
Clayton pediu, Eliane encontrou, e eu trouxe para cá.
BILHETE SUICIDA
"Você me fala de narcisismo, mas eu respondo que é uma questão da minha vida..." Artaud
"Nesta hora, permita-me deixar de alguma maneira as sobras para minhas filhas e suas filhas..." Anónimo
É melhor,
apesar dos vermes falando
com os cascos da égua no campo;
é melhor,
apesar do período das moças
pingando seu sangue;
é melhor de algum jeito
eu me jogar rápido
num velho quarto.
É melhor (alguém disse)
não nascer
é melhor ainda
não nascer duas vezes
aos treze
onde o colégio interno,
cada ano um quarto,
pegou fogo.
Querido amigo,
Vou ter que afundar com centenas de outros
num elevador de pratos para o inferno.
Vou ser uma coisa leve.
Vou entrar na morte
como a lente de aumento perdida de alguém.
A vida está meio aumentada.
Os peixes e as corujas estão raivosos hoje.
A vida balança pra frente e pra trás.
Nem as vespas conseguem achar meus olhos.
Sim,
olhos que já foram imediatos
olhos que já foram despertos de verdade,
olhos que contavam a história toda
pobres animais burros.
Olhos que foram vazados,
cabecinhas de prego,
tiros azul-claro.
E uma vez com a boca
como uma xícara,
cor de argila ou cor de sangue,
abriam como uma barragem
para o oceano perdido
e abriam como a forca
para a primeira cabeça.
Uma vez
minha fome era de Jesus.
Ah minha fome! Minha fome!
Antes de ficar velho
ele andou calmamente por Jerusalém
procurando a morte.
Desta vez
com certeza
não peço compreensão
e ainda espero que todos os outros
se voltem quando um peixe não-treinado pular
na superfície do Lago Echo;
quando o luar,
sua nota grave elevada,
ferir algum prédio em Boston,
quando os belos de verdade jazerem juntos.
Eu penso nisso, claro,
e pensaria nisso muito mais
se não estivesse... se não estivesse
naquele velho fogo.
Eu poderia admitir
que sou só uma covarde
choramingando eu eu eu
sem mencionar as mosquinhas, as traças,
obrigadas pelas circunstâncias
a chupar a lâmpada.
Mas certamente você sabe que todo mundo tem uma morte,
sua própria morte,
esperando.
Então vou agora,
sem doença ou velhice,
descontrolada mas precisa,
sabendo minha melhor rota,
andando naquele burro de brinquedo que montei esses anos todos,
sem jamais perguntar Pra onde vamos?
Nós íamos (ah, se eu soubesse)
Pra isso.
Querido amigo,
por favor não pense
que eu visualizo guitarras tocando
ou meu pai arqueando seu osso.
Não espero nem a boca da minha mãe.
Eu sei que já morri antes _
uma vez em Novembro, outra em Junho.
Que estranho escolher Junho de novo,
tão concreto com seus peitos e ventres verdes.
Claro que as guitarras não vão tocar!
As cobras certamente não notarão.
Nova York não vai ligar.
À noite, os morcegos vão bater nas árvores,
sabendo de tudo,
vendo o que sentiram o dia todo.
(Anne Sexton).
Enviado por: alba N.
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12/02/2006 17:12:11
Hoje...
... a Lebre está nublada.
De nada adiantou o sol claro invadindo o quarto, o sorriso do paciente fofinho, os dizeres das amigas Ri&Ci.
A Lebre não consegue mesmo desnublar.
Por onde andará o Chapeleiro Maluco?
Será que o Cronopio leu o poema?
Enviado por: alba N.
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11/02/2006 22:39:51
Eduardo. Photo&Texto
Eduardo é guru, mentor, mestre... além de ser o melhor fotógrafo que conheço, escreve bem pra caramba.
Meu herói, há séculos.
É pra você este carinho de hoje.
agora fusão de paixão e sensualidade. Seu teor meu ardor traduzem Gestos Sintonia sinfonia sons inexplicáveis ou os explicáveis tipo light my fire e nunca se faz madrugada outras músicas antigas jazz como sempre depois um conto ou uma crônica ou um poema tantas palavras outras histórias uma praça banco de jardim no pôr-do-sol cor do céu cor do seu olhar em tarde boa de andar no mar afinidades infinidades infinitas proximidades y beijos ensolarados de outono e beijos noturnos ou, Como na astrologia, meu norte está em conjunção com o seu sul ou será que não era isso? e nos conjugamos por dentro em explosões profundas existenciais palavras sorrisos dias de sol em dias de só pensar de passar a tarde preguiçosa lendo coisas inimagináveis tipo brincando de fotografia e depois mais beijos ensolarados e noturnos lunáticos de lua cheia brilhante nosso olhar em ruas desertas caminhando juntos pernas beijos abraços praia deserta som do motor do carro a grande cidade jeans fotografia conceitos discursos céticos céticas palavras difusas imagens confusas música celta desejos profusos intensidades et silêncios de noite de dia de manhã de qualquer jeito eu sonho com você Doce sabor de suave sonhar Um banco de jardim olhos braços abraços apertados gostosos esperados no jardim de infinitas afinidades perfumes de incensos cores afagos dormir junto sonhar junto diluir corpo espírito em coloridos sons musicais repetidos profundos & você me diluindo em íntimos líquidos por todo o tempo em que magia se interpõe à vida. E mais umas tantas histórias assim...
Eduardo Barrox, in Café Literário#20, abril-maio 2005
Enviado por: alba N.
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11/02/2006 22:35:56
Da França
Aquele que olha, da rua, através de uma janela aberta, jamais vê tantas coisas como quem olha para uma janela fechada. Nada existe mais profundo, mais misterioso, mais fecundo, mais tenebroso, mais deslumbrante, que uma janela iluminada por uma lamparina. O que se pode ver ao sol nunca é tão interessante como o que acontece por trás de uma vidraça. Naquele quartinho negro ou luminoso a vida palpita, a vida sonha, a vida sofre.
Para além das ondas de telhados, diviso uma mulher já madura, enrugada, pobre, sempre debruçada sobre alguma coisa, e que nunca sai de casa. Pela sua fisionomia, pelas suas vestes, por um gesto seu, por um quase-nada, reconstituí a história dessa mulher, ou antes, a sua lenda, que às vezes conto a mim próprio, a chorar.
Se fosse um pobre velho, eu lhe haveria reconstituído a história com a mesma facilidade.
E vou-me deitar, orgulhoso de ter vivido e sofrido em outras criaturas.
Haveis de perguntar-me agora: -- "Estás certo de que essa história seja a verdadeira?" Que importa o que venha a ser a realidade colocada fora de mim, se ela me ajudou a viver, a sentir que sou, e o que sou?
Charles Baudelaire, "As Janelas".
Enviado por: alba N.
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11/02/2006 11:21:01
de carona...
... no computador do trabalho, vou postando o que posso, inserindo nos textos antigos...
Hoje não soube da Lebre.
O céu da minha cidade está cinzento nesta manhã.
Enviado por: alba N.
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11/02/2006 11:14:41
Frida Kahlo
La tragedia es lo más
ridículo que tiene el hombre
pero estoy segura, de que los
animales, aunque sufren,
no exiben su pena
en teatros abiertos, ni
cerrados (los hogares).
Y su dolor es más cierto
que cualquier imagen
que pueda cada hombre
representar o sentir
como dolorosa.
(Diário de Frida Kahlo)
Enviado por: alba N.
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10/02/2006 21:38:51
Resposta
tua pele
cristal de Lua
que chega pros meus olhos
a cada mês que me afasta de ti
tua língua
inesperada
em começo de
madrugada
com mãos e cheiro
e me tomar
corpo&alma
olhar ardosia
encantador de serpentes
falando esperanto
em spanish lips
me beija
e aquece
a cada noite
como se ainda
estivesse dentro
de mim
e eu boca aberta e sedenta
sussurro a cada estrela que cai
teu nome segredo sagrado
no meu grito mudo
pelo mundo
que nos
mantém longe
albanegromonte
Enviado por: alba N.
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10/02/2006 08:52:51
Sempre trago um Cortazar na algibeira
Um cronópio pequenino procurava a chave da porta da rua na mesa-de-cabeceira, a mesa-de-cabeceira no quarto, o quarto na casa, a casa na rua. Aqui parava o cronópio, porque para sair para a rua precisava da chave da porta.
Julio Cortázar
Enviado por: alba N.
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10/02/2006 08:47:41
Um Cronopio...
... perdeu-se na Floresta e a Lebre o encontrou. Conversaram sobre coisas muitas e várias.
Depois conto o que se deu.
O Chapeleiro olhou de lado, fez que não viu e passou direto.
A Lebre fez um poema pro Cronopio, mas ele ainda não sabe.
Enviado por: alba N.
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10/02/2006 08:39:34
PequenoGrande poema
Um trem-de-ferro é uma coisa mecânica,
mas atravessa a noite, a madrugada, o dia,
atravessou minha vida,
virou só sentimento.
Adélia Prado
Karen Finley
Enviado por: alba N.
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09/02/2006 07:12:57
Como eu gosto de Poesia portuguesa...
Esta foi um achado na noite infinda que passou. Mas valeu a pena, só em ler esta poeta,até então para mim desconhecida.
A porta aporta
a porta roda ao invés da lua
a porta roda bússula enterrada ao invés dos olhos
a porta geme é um cão nocturno
a porta geme extinta na trela da noite
a porta areia
a porta caruncho pária de mar
a porta maré que vem e que vai que bate e que fecha
a porta com máscara de morte
a porta sem sorte
a porta joelho na alma das portas
a porta mulher da casa de passe
a porta manchou a manhã com o grito de porta
a porta enforcada no mastro da casa
a porta por asa
a porta roda
a porta sexo a vida toda
a porta tosca da madrugada pregos são estrelas mortas
a porta pregada
a porta leilão
a porta batente a porta aranha por coração
a porta tu
a porta eu
a porta ninguém na terra pequena
a porta roda
a porta geme
a porta facho
a porta leme
Luisa Neto Jorge
in Quarta Dimensão
Enviado por: alba N.
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09/02/2006 03:22:13
Exercício de criação...
... da lista de discussão de Literatura da qual faço parte: Andarilhos das Letras.
Este foi proposto pelo incrível ser chamado JP Veiga.
Este tem livro e tudo.
Depois eu ponho os títulos dele já no mercado.
CENA
no aeroporto, casal tomando vinho pouco antes da partida. ela com o olhar perdido no painel da companhia, fazendo de cabeça, as contas dos dias para voltar. ele, blasé, olha enviesado para uma garota que passa de calça jeans rasgada no joelho e com cabelos pintados de azul, pensando em como se livrar logo desta história que já durou demais da conta. a mão dela procura a dele, que disfarça, arruma os cabelos e começa a falar baixinho...
MONÓLOGO
Fim de caso
Desculpe-me interromper seu pensamento tão distante, mas acho que chegou a hora de conversarmos feito gente grande. E não faz essa cara de espanto que você já sabia que isto ia acontecer... até andou perguntando outro dia se ainda gosto de você. Ah, então era técnica de revista feminina pra que eu me declarasse enfim apaixonado por você. Sinto muito, não entendi. pensei que era apenas mais um daqueles seus ataques de carência afetiva que me enlouquecem desde o primeiro dia em que te vi. Relevei na hora pois você é muito gostosa. desculpaaaaa... pensei que isto melhoraria sua auto-estima e facilitaria o que não dá mais pra ocultar: é verdade: não gosto mais de você. Não quero mais estar na sua vida. Apague meu endereço de e-mail, rasgue a foto que te dei, risque meu nome da sua agenda e por favor não me telefone mais no meio da noite que ao contrário de você, pessoas normais precisam dormir. Ah, e não se despedace em letras mancas, plenas de lirismo pra mim. Isto não fará diferença alguma. Duro? estou sendo duro? Acho até que amoleci nos últimos tempos... estou te contando antes que me veja com outra. isso é consideração. e por favor, pare de chorar que todo mundo está olhando e você sabe o quanto detesto exposição em público. Nunca beijei você na frente das pessoas, porque agora iria enxugar estas lágrimas repetidas? Pára, por favor... você sabe bem que é esta sua alma de poeta, que a faz sofrer tanto a cada perda. Não sou tão importante assim... foram poucos dias... você mal me conhece. nem sabe o que gosto de comer, que assisto a filmes trash na madrugada, que curto futebol de botão... e pra falar a verdade nem é bom que saiba mesmo, agora que tudo se acabou. Acabou, viu? Então agora enxuga esse olhinho bonitinho, arruma o baton, termina este vinho na taça e vamos embora que seu avião já vai partir. A gente se vê por aí. Você é muito legal e uma mulher bonita. vai encontrar quem lhe mereça. Eu não presto. Sério. Beijo. Na testa. Portão 3. Não esquece. Boa viagem. E não precisa me ligar quando chegar.
Que mulher mais chata! O que um homem não tem que suportar pra melhorar seu ranking...
albanegromonte
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09/02/2006 02:59:35
Como eu previa...
... a Lebre saiu do poço pela manhã, ajudada por uma torre do jogo da Rainha. Mas estava tão desorientada que não viu uma pedra enorme à sua frente... bateu de cabeça e está dormindo até agora. O Chapeleiro Maluco passou bem longe, que nem viu o acidente.
Pobre Lebre... não dá sorte mesmo.
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08/02/2006 00:17:53
Faz tempo, mas ainda me traz boas lembranças
Inverno
No dia em que fui mais feliz
eu vi um avião
se espelhar no seu olhar até sumir
De lá pra cá não sei
caminho ao longo do canal
faço longas cartas pra ninguém
e o inverno no Leblon é quase glacial
Há algo que jamais esclareceu
onde foi exatamente que larguei
naquele dia mesmo
o leão que sempre cavalguei
Lá mesmo esqueci que o destino
sempre me quis só
no deserto sem saudade, sem remorso só
sem amarras, barco embriagado ao mar
Não sei o que em mim
só quer me lembrar
que um dia o céu
reuniu-se à terra um instante por nós dois
pouco antes do ocidente se assombrar
Adriana Calcanhoto
phEBarrox
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08/02/2006 00:16:35
Pois sempre é bom um Vinícius
Soneto da Mulher ao Sol
Uma mulher ao sol - eis todo o meu desejo
Vinda do sal do mar, nua, os braços em cruz
A flor dos lábios entreaberta para o beijo
A pele a fulgurar todo o pólen da luz.
Uma linda mulher com os seios em repouso
Nua e quente de sol - eis tudo o que eu preciso
O ventre terso, o pêlo umido, e um sorriso
À flor dos lábios entreabertos para o gozo.
Uma mulher ao sol sobre quem me debruce
Em quem beba e a quem morda, com quem me lamente
E que ao se submeter se enfureça e soluce
E tente me expelir, e ao me sentir ausente
Me busque novamente - e se deixes a dormir
Quando, pacificado, eu tiver de partir...
Vinícius de Moraes
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08/02/2006 00:13:44
De Hilda
Da Morte
Que já não sei
Se te pensar foi gesto
Para ainda mais ferir
Minha própria mágoa.
Por que, pergunto, estando viva
Devo eu morrer?
Por que, se és morte,
Deves me perseguir?
Aquieta-te, afunda-te
Morre, pequenina,
Escuramente
Dentro do meu sofrer.
Hilda Hilst
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07/02/2006 02:12:32
Dele para mim... no passado.
ALBA
Abril de 1915
(Granada)
Mi corazón oprimido
siente junto a la alborada
el dolor de sus amores
y el sueño de las distancias.
La luz de la aurora lleva
semillero de nostalgias
y la tristeza sin ojos
de la médula del alma.
La gran tumba de la noche
su negro velo levanta
para ocultar con el día
la inmensa cumbre estrellada.
¡Qué haré yo sobre estos campos
cogiendo nidos y ramas,
rodeado de la aurora
y llena de noche el alma!
¡Qué haré si tienes tus ojos
muertos a las luces claras
y no ha de sentir mi carne
el calor de tus miradas!
¿Por qué te perdí por siempre
en aquella tarde clara?
Hoy mi pecho está reseco
como una estrella apagada.
Federico G Lorca
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07/02/2006 02:07:05
Surreal&Passional
Foi para ti e para teus olhos que criei estrelas no céu cinza-escuro
onde vez por outra surgia uma lua solitária e carente.
Mas estou cansada de magicar teus desejos.
Ontem sem nada pra te contar ao chegar em casa,disse quase com descaso, esperando o impacto:
- "Soubeste que a ornitorrinca do 201 comprou um brinco de diamantes?"
E diante da TV, sem som onde as imagens do replay da Ira de Deus se enroscavam em brutalidade animal,respondeste com ar de enfado:
- "Que bobagem, sabes bem que ornitorrincos não tem orelhas"
Aí lembrei que foi uma das primeiras mágicas que te fiz. Inventei bicho de nome esquisito, faltando pedaço, para que tua risada
me chegasse em melodia portenha.Sentei a teu lado, sem jeito e ajeitei a mecha de cabelo que caía sobre os meus olhos mudos.
E o silêncio de nós ecoou pelas paredes.
Um fado em solfejo entrou pela janela
mas diante de tamanho vácuo sideral
passou adiante.
A luz trêmula da TV à nossa frente. Relíquias astecas se alternando com múmias de gatos egípcios e saltos ornamentais de samurais ninjas Reloaded Matrix, ou Revolutions, ao sabor do teu toque nas teclas.
Procurei tua mão e me entreguei à memória que trago de ti no canto mais largo e arejado do meu coração bobo-bola-de-sabão.
Tequila engarrafada. Dry Martini. My name is Bond. Play it again, Sam. Lufadas de vento frio pelas cortinas envidraçadas. Volteios de desejo em meu corpo nu por baixo do vestido diáfano. Kill Bill, Gary Oldman, Blade Runner, Jude Law in Cold Mountain- que filme! Gattaca, Uma Thurman que é mulher pra mais de metro! O Gato de Botas com o olhar de pedinte qual o meu sobre a tua boca úmida de vinho bebido com a gueixa tropical que se despedia rumo a Paris, quando lá era uma festa.
E teu olhar colado no meu braço tatuado.
E o grito da rosa laranja na jaula do Tempo.
- Ah, Zeus! Onde joguei a chave do cadeado?
Cuida que esta rosa morre antes que amanheça e nada mais será como antes, pois quando tudo era o Caos e nem eu, nem tu sabíamos que serámos parte da História, recebemos violetas inertes pra ressucitar.
A tua, dorme hoje em vaso de barro, indiferente à monotonia.
A minha durou um piscar de olhos, um dia de inseto, o demorar do teu amor dentro de mim.
E um pássaro empalhado toca nossa campainha, com os olhos cegos e a garganta sangrando palavras e palavras tantas,
que dava pra escrever uma Odisséia em tamanho, um Ulysses em complexidade, um Cortazar em ternura, um Borges em fantasia, um Lorca em rebeldia e mais um tanto de letras que explodiriam o mais hightecnológico brinquedo americano de interconectar pessoas e pensamentos.
Tenho piedade deste pássaro petrificado, a quem sobram apenas penas de sangue e palavras a jorrar pela garganta ferida, como cantares antigos de canções medievais ou de bruxas semi-deusas ao redor da fogueira que embalavam os sonhos de princesas que eram, antes de serem tocadas pela lembrança atávica de Lilith, a ciumenta, que ao perder seu amor, transmutou-se em serpente e deu nessa confusão toda que hoje aí existe, de gentes procurando Paraísos Artificiais. E Adão que preferia sua Lua Negra Lilith que
sabia das coisas mais que a Santa Eva que só comeu a maçã porque estava mesmo com fome e não pelo querer pecar, ficou mortificado de saudades, mas tinha que obedecer ao Pai. Aí semeou em Eva, Baudelaire e Jim Morrison só pra se vingar assim sei lá de que.
E nunca entendo porque as mulheres em Paris se rasgavam em sedas para que Picasso as pintassem, se era tudo orelhas-nariz&olhos... E também noutro dia descobri, pelo dizer de uma poeta das boas, que o escuro do pintor que eu mais gostava, Caravaggio, que na verdade foi o inventor do jogo luz&sombra que se usa hoje nas fotografias e desde o tempo dele que o diabo já sabia e pintava até Cristo que nem numa foto feita em camera digital de muitos megapixels que foi outra palavra que aprendi depois de grande.
Ou nem tão grande sou, já que tem tanto assunto nesse mundo, em que só engatinho e tem vacinas que ainda não tomei.
Mas os trovões alardeiam o fim do dia, e a rosa laranja
agoniza dentro da jaula do Tempo. O Mestre da poeta doce não ouviu o recado na caixa postal do celular negro deixado sobre o altar dos ermitões e sábios intinerantes que rolavam pelas calçadas de uma cidade que tem nome de santo, mas nem é batizada. Estes sábios oravam pelo martírio do Sunday Blood Sunday (quando isso ainda não era nome de música) e também não escutavam nada, além dos gritos de horror das almas espatifadas pelas bombas dos homens-meninos-suicidas que chegaram duas vezes em Setembro. Munique&NY. Hasta la vista, WTC. Fogo, dor, poeira e granito abaixo do chão que onde dizem mora o Demônio com chifres e rabo vermelho.
Manitu! Tupã!
Xangô!
Deuses quaisquer, me ajudem a salvar a rosa laranja que só por ser dessa cor já não nasce outra vez,
e eu por castigo
reencarnarei mil vezes pra pagar esse pecado absurdo de deixar a rosa dos Tempos morrer, enquanto escrevia em grafite nas paredes das cavernas das tribos milenares a profecia de tudo que aconteceu ontem e hoje neste espaço paralelo da minha vida.
albanegromonte
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07/02/2006 00:55:06
A Lebre...
... hoje, distraída como sempre, ao caminhar pela floresta, caiu num poço escuro.
Ainda está lá, pois ninguém consegue lhe ouvir os gritos.
Quando o sol nascer, certamente vai aparecer um dos peões da Rainha para tirá-la de lá.
Joguei um livro pra ela ir se distraindo. E também biscoitos de chocolate.
Aqui vai o Pequeno Cronopio disfaraçado com casaco de frio...
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06/02/2006 01:10:01
Uns minutos...
... de conversa com o Chapeleiro, e a Lebre com seus bracitos para cima, parece mais um pequeno Cronopio de tão feliz...
E toda a Floresta também se ilumina com esta alegria.
A Lebre desconhece o seu poder sobre o que a rodeia.
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06/02/2006 00:47:26
Maturidade
"Com o tempo você vai percebendo que para ser feliz com outra pessoa, você precisa em primeiro lugar, não precisar dela. Percebe também que aquela pessoa que você ama ou acha que ama, e que não quer nada com você, definitivamente, não é a pessoa da sua vida. Você aprende a gostar de você, a cuidar de você e, principalmente, a gostar de quem também gosta de você. O segredo é não correr atrás das borboletas... é cuidar do jardim para que elas venham até você. No final das contas, você vai achar, não quem você estava procurando, mas quem estava procurando por você..!"
Mário Quintana
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05/02/2006 01:00:19
Neftali
O Poço
Pablo Neruda
Cais, às vezes, afundas
em teu fosso de silêncio,
em teu abismo de orgulhosa cólera,
e mal consegues
voltar, trazendo restos
do que achaste
pelas profundezas da tua existência.
Meu amor, o que encontras
em teu poço fechado?
Algas, pântanos, rochas?
O que vês, de olhos cegos,
rancorosa e ferida?
Não acharás, amor,
no poço em que cais
o que na altura guardo para ti:
um ramo de jasmins todo orvalhado,
um beijo mais profundo que esse abismo.
Não me temas, não caias
de novo em teu rancor.
Sacode a minha palavra que te veio ferir
e deixa que ela voe pela janela aberta.
Ela voltará a ferir-me
sem que tu a dirijas,
porque foi carregada com um instante duro
e esse instante será desarmado em meu peito.
Radiosa me sorri
se minha boca fere.
Não sou um pastor doce
como em contos de fadas,
mas um lenhador que comparte contigo
terras, vento e espinhos das montanhas.
Dá-me amor, me sorri
e me ajuda a ser bom.
Não te firas em mim, seria inútil,
não me firas a mim porque te feres.
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05/02/2006 00:59:19
Pensando com os gregos
"Eu tenho uma grande arte: eu firo duramente
aqueles que me ferem. E tenho uma arte ainda
maior: eu amo aqueles que me amam."
Arquíloco - Poeta Grego
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05/02/2006 00:21:58
Esta noite...
A Lebre está muito triste.
Desfolha uma margarida, enquanto pensa em como é difícil amar nestes dias de trovão.
O Chapeleiro Maluco foi passear na floresta e ainda não voltou.
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02/02/2006 07:39:55
Kafka também amava
Esta manhã tornei a sonhar contigo. Estávamos sentados, juntos, e tu me afastavas, não com maus modos, porém amavelmente. Eu me sentia muito infeliz. Não porque me afastasses, porém por minha culpa, porque te tratava como a uma silenciosa qualquer, e não percebia a voz que falava em ti, que justamente me falava, a mim. Ou talvez não fosse que não a percebesse, porém que não pudesse responder. Mais desconsolado ainda do que no outro sonho, eu me ia.
Ocorre-me à memória algo que uma vez li em alguma parte, mais ou menos assim: "Minha amada é uma coluna de fogo que traslada pela terra. Agora me tem preso. Mas não conduz aqueles que prendeu, porém aos que a vêem."
Teu.
(Agora perco também o nome; cada vez se torna mais breve e chegou a ser somente: Teu.)
Franz Kafka, em "Cartas a Milena".
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02/02/2006 07:38:57
Ser feliz
A Lebre ontem, ouviu o Chapeleiro Maluco via telepática e se viu muito triste, entristecendo também a floresta e a ele. Resolveu então, tentar mais um pouco pôr a cabeça fora da água e parar de olhar pro próprio umbigo. E trouxe este poeminha (por ser pequeno em tamanho, mas grandioso no sentido), da Adelia Prado
Uma ocasião,
meu pai pintou a casa toda
de alaranjado brilhante.
Por muito tempo moramos numa casa,
como ele mesmo dizia,
constantemente amanhecendo.
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01/02/2006 17:23:23
La Dicha
A felicidade
Jorge Luis Borges
O que abraça a uma mulher é Adão. A mulher é Eva.
Tudo acontece por primeira vez.
Hei visto uma coisa branca no céu. Dizem-me que é a lua,
mas
que posso fazer com uma palavra e com uma mitologia.
As árvores me dão um pouco de medo. São tão formosas.
Os tranqüilos animais se aproximam para que eu lhes diga seu
nome.
Os livros da biblioteca não têm letras. Quando os abro
surgem.
Ao folhear o atlas projeto a forma de Sumatra.
O que ascende um fósforo no escuro está inventando o
fogo.
No espelho há outro que está à espreita.
O que olha o mar vê à Inglaterra.
O que profere um verso de Liliencron há entrado na
batalha.
Hei sonhado a Cartago e as legiões que desolaram a
Cartago.
Hei sonhado a espada e a balança.
Louvado seja o amor no qual não há possuidor nem possuída,
mas os dois se entregam.
Louvado seja o pesadelo, que nos revela que podemos criar o
inferno.
O que descende a um rio descende ao Ganges.
O que olha um relógio de areia vê a dissolução de um império.
O que joga com um punhal pressagia a morte de César.
O que dorme é todos os homens.
No deserto vi a jovem Esfinge que acabam de lavrar.
Nada há tão antigo abaixo do sol.
Tudo acontece por primeira vez, mas de um modo eterno.
O que lê minhas palavras está inventando-as.
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01/02/2006 17:21:21
Eu&Viejo Brujo
Pela honra e prazer de escrevermos juntos.
Grande parceiro, você, Viejo Brujo.
Todo meu carinho e admiração.
Abraços
Alba
(aguardando um título)*
A vida é breve.
O amor dura uma estação
Então porque você não me pede pra voltar? (Alba)
Talvez por ser breve a vida,
e o momento passou feérico
como experiência
encerrando em si
a mesma vida. (Alberoni)
Ainda assim, espero
Que as estações se enquadrem
no que o Tempo pra elas reservou.
e que você, ao olhar no calendário
perceba que ainda falta
de mim, viver alguns dias (Alba)
Não as estações marcam no corpo
como sentimentos,
são os dias de espera sem esperança lúcida
quando guiados pela mente.
Deixe-a jogada no armário
como roupa usada e fora de moda,
guarde-se no silêncio do quarto
dito absurdo,
nos traz a perdida alegria,
se a alma não é pequena (Alberoni)
Então se creio em tua Poesia
e ainda mais em Esperança
Guardarei minha espera insana
em gaveta qualquer de armário da lembrança
do pouco que fui
e do tanto que és
Pois sempre uma estação chega
quando a outra finda
E um dia quem sabe
talvez me aches
no silêncio do quarto
no vão da mente
que nunca pôde
te dizer
adeus Alba
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01/02/2006 17:07:20
Estradas de Dezembro
um dia, escrevi este aqui,
guardei,
esqueci...
hoje, no remexer do passado dos
cofres selados
com fitas de cetim...
encontrei-o e resolvi postar
e como da primeira y segunda vez, em meses distantes em números pares e discretamente redondos,
te espero com velas y incensos mais poderosos que a fumaça do teu cigarro. and, sem blues e jazz, pois ainda não sei se dura um poema esta nossa história, deixo que o silêncio fale por mim e te diga que sim. é bom você rasgar o céu no pássaro de plata y me chegar furacão, dizendo obscenidades no meu ouvido e se abrindo inteira para minhas retinas atrevidas de ojos que tudo viram e que mais um pouco não fará nenhum mal.
abro as portas da casa, indico o labirinto que leva até a minha cama.
e você, sem perguntas quaisquer que me façam dizer "que diabos foi isso que eu fiz?", toma banho com óleos dourados que tornam sua pele morena ainda mais macia&cheirosa, beija minha boca aberta e passando a língua na borda da taça de vinho, me diz em silêncio também que sou o que mais quer neste momento.
e posso ouvir seu coração batendo dentro da blusa transparente e diáfana, como o manto com que queria cobrir tua nudez, que agora me incomoda, com tanta firmeza e maturidade, que nem sei mesmo como ensinar o que você diz não saber, mas faz, como se fosse gueixa, puta ou deusa.
e tenho medo de beijar seus pés e de fazer noventa e oito fotografias do teu corpo sereno&calmo depois do gozo que ilumina teus olhos e eu me vejo dentro deles como se fosse o primeiro ou o último homem criado pelo deus crucificado que trazes no pescoço e no umbigo que beijo e bebo como cálice de cicuta dado ao prisioneiro
condenado à morte, para que não sofra com o fogo, com as flechas, com a dor.
e será dor que sentirei quando chegar o dia em que montarás nas asas do pegasus prateado que te levará à cidade do sol, dos rios cortando as ruas, dos mangues, frevos e maracatus?
não sei.
sei que queria ser outro, que pudesse escrever na tua pele um poema destes azulados, calientes e tão vero que te deixasse com vontade de voltar.
mas eu sei, que na roda do calendário haverá um outro dia, em que tua voz me dirá "estoy ca" e tua presença plena de tudo encherá os pequenos vazios que nem sabia existir no meu canto.
e eu certamente acenderei velas y incensos, te darei vinho e chocolate, darei risada do presente estranho que me trouxeres, e brincarei com teus cabelos longos, com tuas coxas grossas e beijarei tua boca com saudade,
e te cobrirei com algum lençol que achar pela casa, para que não andes com alma tão nua.
e não sei se será neste terceiro ou quarto encontro do teu corpo na minha cama, que me renderei a teu encanto, e te darei um solo de joplin, te direi um poema de Chacal, te enrolarei no sudário que guardo há séculos e dançarei só contigo sob a luz da lua e dos olhos dos gatos da rua, a dança das tribos antigas de onde viemos e pra onde voltaremos se eu um dia, decidir te amar.
aí, chegará o dia de tua partida, e eu te pedirei. fica, quero ser feliz com você.
albanegromonte
Enviado por: alba N.
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01/02/2006 16:39:32
Madagascar
Blog do balaco, merece visitas&visitas. Da minha amiga Rita Santilli.
O endereço:
http://madagascaroriental.blospot.com< span>
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01/02/2006 16:36:39
Notícias da Lebre
Hoje o Chapeleiro Maluco mandou um beijo para a Lebre.
Ela sorriu um pouco, bateu as patinhas no chão e foi dormir embaixo de uma árvore.
Enviado por: alba N.
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01/02/2006 16:33:47
E essa paixão que me faz feliz... Cortazar
"Creo que soy porque te invento,
Alquimia de águila en el viento
desde la arena y las penumbras,
y tú en esa vigilia alientas
la sombra com la que me alumbras
y el murmurar com que me inventas."
Julio Cortazar
Enviado por: alba N.
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30/01/2006 09:25:19
Folie
acordada, estava dormindo. caminhou com pés descalços pelo chão frio da casa. abriu a porta dos fundos, desceu escadas, atravessou portão e pairou cor púrpura na avenida calma àquela hora da madrugada, ultrapassando os sinais amarelos e brilhantes. um guarda cético que passava naquele instante, viu aquela mulher pendurada em nada, com pés brancos de plantas sujas, cabelos negros, olhos abertos e fechados, como se fosse possível tudo num só olhar , flutuando em cores pálidas, em perfumes secos. coçou os olhos, o guarda, fez o sinal da cruz e jurou nunca mais beber. pelas nuvens carregadas da noite sul americana, pingavam gotas vermelhas de chuva. coágulos. e ela, desceu à calçada, ajeitou as alças da camisola e pôs-se a andar até a praia. ouviu sussurro da Rainha do mar, que dizia que voltasse, e dos raios que cortavam o céu ensanguentado, ouvia a espada da Rainha da tempestade, cortar os paralelepípedos à sua frente, criando vãos e pequenos abismos, atrasando seu passo pra ver se amanhecia, e a criatura não conseguisse atravessar estas paredes da sua inocente loucura. mas como quem joga amarelinha, ela pulava sorrindo em contralto, cada pedaço de chão aberto. uma criança chorou ao longe, um gato atravessou-lhe o caminho e se enroscou em suas pernas tentando fazê-la cair. e de joelhos, ela lhe deu o seio. ele bebeu seu néctar lácteo e saiu feliz, esquecido da sua missão. e a chuva vermelha continuava sobre a cidade, sobre as pontes, rios e overdrives. e enquanto o flash de um fotógrafo andarilho iluminava as letras do jornal passado, um pastor de ovelhas saiu de um poema com seu rebanho e atravessou a rua que a separava do mar. e como se fosse bandeira hasteando-se, ela solene subiu em um poste e volteou as lãs que se soltavam dos animais em fila dupla. o Cristo que trazia no umbigo, arrancou-se da cruz e com as mãos feridas transformou em brasas seus olhos acordados que dormiam. mas ela chorou lágrimas de rio que é água doce, e se achou de novo a voar. e na areia pousou. primeiro um pé, depois o outro, e o corpo todo inteiro a sonhar. deitou-se na areia macia, olhou pro céu que se alaranjava que nem a cor do girassol que o pintor sem orelha um dia falou numa canção que em vez de nome, tinha número e dizem, que seu autor se foi, mas um poeta outro dia tomou vinho com este mesmo menino que tocava piano, junto a uma lareira e com um cachorro aos pés. parece então que não morreu. uma estrela-do-mar, caminhou até ela, e cochichou algo no seu ouvido. e ela num salto de trapezista, sumiu no primeiro raio de sol que secava os coágulos da chuva que se ficaram nas folhas e árvores, e ressurgiu na própria cama, envolta em lençóis de cetim, com os pés descobertos imaculadamente brancos. em sonho sorriu um sorriso quase feliz de quem recebeu carta de longe. seu respirar ritmou-se com o canto do rouxinol que pousou na janela. uma violeta se abriu, o galo cantou, o vento assanhou as páginas de um livro de poesia. e o dia se anunciou com a batida de asas de um colibri que por ali estava, tentando avisar que a vida venceu.
albanegromonte, 30 de janeiro de 2oo6, a trinta minutos da zero hora.
Homenagem implícita:
Win Wenders, Fernando Pessoa, Van Gogh, Mozart, Frida Kahlo, Chico, Iemanjá, Iansã, JM Restivo Braz, Adélia Prado e Eduardo Barrox.
Enviado por: alba N.
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30/01/2006 09:04:52
- E por onde andará...
... o Chapeleiro Maluco?
Pergunta a Lebre.
- Em outros espelhos.
Responde o Gato Risonho.
A lebre senta no chão, colhe uma flor e espera.
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29/01/2006 08:50:32
Um achado
Alfonsina Storni
(1892 - 1938)
El engaño
Soy tuya, Dios lo sabe por qué, ya que comprendo
Que habrás de abandonarme, fríamente, mañana,
Y que, bajo el encanto de mis ojos, te gana
Otro encanto el deseo, pero no me defiendo.
Espero que esto un día cualquiera se concluya,
Pues intuyo, al instante, lo que piensas o quieres.
Con voz indiferente te hablo de otras mujeres
Y hasta ensayo el elogio de alguna que fue tuya.
Pero tú sabes menos que yo, y algo orgulloso
De que te pertenezca, en tu juego engañoso
Persistes, con aire de actor del papel dueño.
Yo te miro callada con mi dulce sonrisa,
Y cuando te entusiasmas, pienso: no te des prisa,
No eres tú el que me engaña; quien me engaña es mi sueño.
***
O Engano
Sou tua, Deus o sabe porque, já que compreendo
Que haverás de abandonar-me, friamente, amanhã,
E que embaixo dos meus olhos, te encanto
Outro encanto o desejo, porém não me defendo.
Espero que isto um dia qualquer se conclua,
Pois intuo, ao instante, o que pensas ou queiras
Com voz indiferente te falo de outras mulheres
E até ensaio o elogio de alguma que foi tua.
Porém tu sabes menos do que eu, e algo orgulhoso
De que te pertence, em teu jogo enganoso
Persistes, com ar de ator do papel dono.
Eu te olho calada com meu doce sorriso,
E quando te entusiasmas, penso: não tenhas pressa
Não es tu o que me engana, quem me engana é meu sonho.
Tradução: Maria Teresa Almeida Pina.
Enviado por: alba N.
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29/01/2006 08:48:32
Saudade
A Lebre ontem, procurou o Chapeleiro Maluco por toda a floresta. Viu-o de relance, sorriu, e ele sumiu.
É o Chapeleiro ou o Gato Risonho?
A Lebre então chorou.
Mas não disse nada.
Enviado por: alba N.
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29/01/2006 02:52:25
Filosofando no Domingo
"Como eu suportaria o fato de ser homem, se o homem não fosse também poeta, solucionador de enigmas e salvador da casualidade? Salvar o passado e mudar tudo aquilo que era em aquilo que deveria ser, somente isto seria para mim uma redenção. Também no meu conhecimento sinto somente a alegria de gerar o porvir da minha vontade; e se na minha intuição existe algo de inocência, isso sucede porque ela encerra a vontade geradora. A profunda certeza de que todos aqueles que criam são rudes, constituem o verdadeiro sinal característico de uma natureza dionisíaca."
Nietzsche.
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